Um pastel, um caldo de cana e um SXSW por favor.
Narrativa de como foi meu festival esse ano.
Essa newsletter semanal é criada para assinantes da Moovers Learning Experience.
Escrita pela nossa Diretora Executiva, a futurista Monica Magalhaes, que compartilha insigths, reflexões e análise de tendências em tecnologias emergentes. Hello moovers! Monica Magalhaes por aqui 👋🏼
A narrativa hoje é em primeira pessoa, o que dispensa essa introdução aqui ;)
Um pastel, um caldo de cana e um SXSW por favor.
Estou sentada na primeira fileira, as paredes e carpetes marrons e o mesmo cheiro de ar condicionado reciclado fazem meu cérebro conectar memórias passadas que vivi neste mesmo lugar. Apesar de que salas de conferência em geral são quase sempre iguais, há algo de familiar e reconfortante nessa repetição que é vir para a cidade de Austin todos os anos.
Olho ao redor da sala e percebo: todo mundo está ouvindo a mesma coisa, mas ninguém está vivendo a mesma experiência. Há os jornalistas, com postura contida e olhar analítico. Os alternativos, visualmente expressivos e curiosos. Os visivelmente inquietos. Os ansiosos. Os pessimistas que reviram os olhos. E os otimistas que acenam com a cabeça. Me incluo nesse último grupo.
As pessoas pensam que o otimista não sofre de angústia. E isso não é verdade. Otimismo não é ignorância emocional. É uma forma de interpretar e sobreviver ao caos. O que muda é a narrativa interna. O otimista reconhece que as coisas podem dar errado, mas acredita que consegue lidar com isso.
Estávamos todos sentados assistindo um bate-papo, era uma conversa entre Dr. Jonathan Cirtain, CEO & President da Axiom Space, e Robert Capps, jornalista. Falavam sobre o futuro da exploração espacial. Mais especificamente, Dr. Jonathan comentava quase que de maneira aleatória como a construção de uma planta para produzir insulina no espaço (em escala) poderia ser um problema para aprovação do FDA que atualmente ainda faz vistorias físicas no local para aprovação de novos fármacos.
Por alguns segundos meu cérebro tenta reagir… mas não sabe como. Ao mesmo tempo que penso “this is so f* big”, olho pro lado e vejo todo mundo fingindo costume. Ninguém parecia particularmente impressionado. Come on people, não estamos falando de abrir uma fábrica nova aqui na Marginal Pinheiros… Não sei vocês, mas eu me sinto uma espectadora de algo histórico.
Após 30 anos de operação contínua, a ISS - Estação Espacial Internacional está chegando ao fim. E a Axiom Space, startup de Houston, firmou parcerias com Prada (que vai desenhar o look dos viajantes espaciais), Oakley (que vai desenhar o óculos adequado a claridade do espaço), Nokia (para garantir que você possa fazer uma call com quem está na lua) e NASA, tudo em busca de construir a primeira estação espacial comercial do mundo. O sonho de viver e trabalhar no espaço não é mais distante.
O painel sobre como transcender a terra acaba e permaneço na sala por alguns minutos para terminar minhas anotações. Saem os interessados na era da industrialização espacial e entram novos curiosos. A conversa começa e reparo que o assunto já é um velho conhecido, coisas sobre trazer de volta às nossas florestas dinossauros do período jurássico. Vejo que o tópico não atraiu muitas pessoas uma vez que Colossal Bioscience, des-extinção de mamutes e outras espécies já é uma conversa velha. Fingi costume e saí.
Biotecnologia desperta curiosidade, mas o verdadeiro sucesso de público são as conversas sobre IA apocalíptica. As salas de IA estão lotadas. Nos rostos, uma mistura de medo, ansiedade, interesse (e também ansiedade disfarçada de interesse). A IA como tecnologia já virou commodity por aqui. Mas a IA no desenvolvimento humano está apenas começando. Filas e mais filas para ouvir sobre “When AI Shops for You”, “Human+AI Alliance”, “AI & the Brain”, “Deeply Human in an AI World”, e por aí vai.
A IA virou esse lugar estranho na minha cabeça, velha demais pra surpreender, nova demais pra ignorar. É fadiga e fascínio ao mesmo tempo. Um paradoxo que arrasto comigo por todo o festival. Uma mistura de déjà vu tecnológico com urgência social. É cansativo porque palavras se repetem (”transformação”, “escala”, “produtividade”, “cognitivo”), mas ao mesmo tempo parece uma conversa sofisticada.
Mas concordei com Marc Cuban que na sua sessão sobre “Can Media Survive AI? The Fight for Public Trust” comentou sobre sua tese de que deveríamos parar de tentar regular AI. Essa não é uma tecnologia como as outras que dependem de humanos para se auto-desenvolver. O pace humano pode até acompanhar o pace regulatório, mas uma máquina que se autodesenvolve não. AI é uma tecnologia para ser monitorada e não regulada. Parem de lutar contra o invisível!
Mesmo depois de 10 sessões e um documentário com especialistas em Inteligência Artificial, concluo que não existe conclusão se IA é paraíso ou inferno.
Depois de dias expondo meu cérebro a essa tensão de ser puxado em direções opostas, tentando acomodar conversas sobre um mundo que ainda não tem forma, encontrei clareza na palestra de Timnit Gebru, “Reclaiming our Humanity in the Age of AI”. Gebru, uma mente brilhante e pesquisadora do AI Research Institute, trouxe uma perspectiva que achei ótima: IA não cria arte porque sempre inventa algo a partir do histórico passado, arte mesmo é sempre a criação de coisas novas.
Thanks God! Até que enfim alguém fechou uma janela. Algumas falas como essa ancoram. Sinto que meu cérebro pode relaxar um pouco, parar de especular por alguns momentos e me seguro nessa ideia como uma âncora enquanto aguardamos as novas versões de produto.
Decido terminar meu festival, mais conectada à natureza, ao orgânico, ao humano e aos animais. Entro numa palestra sobre comunicação com baleias cachalote. E eu amo baleias.
O painel se chama **We’re on the Cusp of Communicating with Whales, com Nathan Lump, Editor Chefe na National Geographic e David Gruber, Founder Project CETI.
Para minha não surpresa os speakers apresentavam o primeiro Whale Language Model. O modelo de machine learning que estão desenvolvendo para analisar os padrões de comunicação das baleias e prever comportamentos a partir desses sons. Pode-se concluir que já é possível ouvir a baleia dizer que vai dar um mergulho ou se vai subir pra respirar um ar fresco.
Claro que com essa conquista, David se apropria de um storytelling de SCI-FI (e eu também faria o mesmo). “Se conseguimos decifrar uma linguagem totalmente não humana na Terra, estamos dando um passo técnico em direção a entender qualquer linguagem desconhecida — inclusive, em teoria, extraterrestre.”
Foi uma semana de excesso de estímulo, onde pude viver em uma sociedade do futuro hiperestimulante e cheia de novas possibilidades. Depois do quinto dia, meu cérebro pedia um certo conforto. E isso não é nenhum apego ao passado ou regressão, entendo mais como um momento de regulação.
Cheguei de volta ao Brasil na 5-feira a noite. Sexta-feira pela manhã é dia de feira aqui a rua. Puxei uma baqueta de plástico branca, e pedi um pastel com caldo de cana. Enquanto degusto nossa iguaria nacional, abro o aplicativo para checar se já estão abertas as vendas dos tickets para no próximo ano.
Ufa! que sensação boa. Talvez essa seja a minha maneira de integrar o novo ao seu lugar.
let’s keep moving,
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