Esperança também exige coragem
O custo de acreditar no progresso quando o positivismo se tornou uma posição impopular.
Essa newsletter semanal é criada para assinantes da Moovers Learning Experience.
Escrita pela nossa Diretora Executiva, a futurista Monica Magalhaes, que compartilha insigths, reflexões e análise de tendências em tecnologias emergentes. Hello turma! Monica Magalhaes por aqui 👋🏼
Não tenho a intenção que este texto soe catártico, nem como uma celebração ingênua. Mas acho que é um bom momento para uma reflexão sobre um padrão que eu vejo se repetir: quem se entusiasma com tecnologia costuma ser tratado como superficial, irresponsável, ou como alguém que precisa se explicar o tempo todo.
Minha escrita hoje vem para dar nome a esse incômodo e abrir espaço para um otimismo que não seja julgado. Esperança também exige coragem.
Esperança também exige coragem
Me lembro que era fevereiro de 1998, uma quarta-feira de cinzas, logo depois do carnaval, no meu primeiro dia de trabalho na Diebold. Quase trinta anos atrás.
A Diebold era, naquele momento, uma empresa em pleno voo de cruzeiro. Fundada em 1859 para fazer cofres para bancos, ela havia atravessado o ciclo de ruptura tecnológica da computação em 1980 e dominava o mercado de ATMs no Brasil e no mundo.
Os bancos estavam informatizando suas agências na época. Os caixas eletrônicos estavam surgindo nas calçadas. Recém-formada em Ciência da Computação, entrei para trabalhar em um projeto do primeiro ATM, ou caixa depositário, do Brasil. Saques já existiam. Mas para fazer qualquer depósito ou transferência, o cliente ainda precisava enfrentar filas dentro das agências.
Dois meses depois, o Banco Bradesco lançava o primeiro depositário do país. Eu fiz parte daquele projeto, mas confesso não ter tido a menor noção, na época, do tamanho da mudança que estava acontecendo no mundo naquele momento.
Depois ainda vieram outros projetos: a ATM emissora de talões de cheque e a de pagamento de boletos, iniciativas que trouxeram uma transformação profunda nos bancos brasileiros. Fui acompanhando tudo de dentro, sempre conectada a projetos que mudaram a forma como a sociedade se relacionava com essas instituições.
Não só por essa, mas também pela soma de tantas outras histórias, assumo hoje um lugar de tecnopositivista. Uma otimista com o futuro da tecnologia. Que nada tem de ideologia, mas uma esperança que vem da experiência acumulada.
Por ironia, o debate sobre tecnologia hoje está, como muita coisa no mundo, polarizado. Por vezes acho que só existem duas narrativas: ser a favor das máquinas ou defender os humanos no seu extremo analógico. Confesso que me dá preguiça ter que justificar minhas opiniões sobre qualquer cenário.
Minha sensação é de que algumas conversas já nascem com o pressuposto de que existe uma hierarquia moral implícita. Quem critica a tecnologia é automaticamente posicionado como o adulto na sala: o pensador crítico, o cauteloso, o que enxerga além do hype. Quem se entusiasma com seu potencial, muitas vezes, acaba recebendo o rótulo de ingênuo que não tem profundidade suficiente para ver os riscos. Não existe espaço para o otimismo genuíno. Já percebi que essa é uma tentativa de desqualificar o argumento do outro sem precisar enfrentá-lo com contra-argumentos.
Eu nunca enxerguei esse movimento, que inclui o meu trabalho, como uma escolha ideológica. Me apaixonei pelo conceito de abundância que ele carrega: a ideia de que tecnologia, ciência e colaboração podem reduzir drasticamente a escassez e ampliar o acesso ao que antes era privilégio de poucos, fazendo o “mais e melhor” custar cada vez menos e chegar a mais gente. Foi isso que vivenciei anos atrás ao ver as filas desaparecerem dos bancos.
É uma pena que essa imagem da abundância tenha sido enfraquecida quando bilionários a capturaram como narrativa, colocando um “God will” por trás do conceito para justificar projetos que, na prática, servem mais ao próprio enriquecimento do que ao bem comum.
O progresso tecnológico, quando bem feito, é um movimento de acesso, de redistribuição de possibilidades que antes eram ofertadas apenas para quem tinha tempo, dinheiro e proximidade geográfica com os centros de serviço.
Esperança e positividade nunca foram sobre celebrar a tecnologia. Foram sobre acreditar que o progresso, conduzido com responsabilidade e com gente suficiente na mesa, é uma das formas mais poderosas de cuidado coletivo que existe.
Não ignoro os riscos, e me esforço para acompanhar e questionar toda evolução. Mas me recuso a deixar que tudo se transforme em conversas apocalípticas e retrógradas. Acreditar no potencial da tecnologia e reconhecer seus perigos não são posturas contraditórias são, na verdade, uma postura de maturidade.
Uma forma honesta de discutir tecnologia é colocar as mesmas regras para todos: quem aponta benefícios precisa dizer como eles aconteceriam, quais são os limites e em que condições; quem prevê catástrofes também precisa dizer como elas aconteceriam, quão provável é e em que condições. A ideia não é “provar que não há riscos”, e sim separar risco real de medo genérico. O debate deixa de ser teatro moral e volta a ser o que deveria: uma investigação conjunta sobre o que vale a pena construir, e sob quais regras.
Tecnopositivismo não é ingenuidade. Não é achar que tudo vai dar certo, que a tecnologia resolve tudo sozinha, ou que os riscos não existem. É uma escolha sobre de onde se parte para pensar. O que o pessimismo tecnológico faz, com frequência, é se disfarçar de ceticismo quando, na verdade, é só outro tipo de crença.
No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja “a tecnologia é boa ou ruim?”, mas “qual futuro a gente está disposto a assumir como responsabilidade?”. Porque ferramenta nenhuma carrega, sozinha, um destino moral. O que existe são escolhas: quem desenha, quem regula, quem lucra, quem fica de fora, quem paga o preço, quem tem voz para dizer “assim não”.
Positividade e esperança, para mim, é respeitar que cada pessoa chega ao debate com um repertório legítimo. O futuro não será decidido por quem tem razão, será construído pela soma de todas essas vozes. E é exatamente por isso que todas elas precisam continuar na conversa, inclusive a minha..
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