COMUNIDADES - O destaque de 2026 do SXSW
A poucos dias de embarcar para o SXSW, um tema já se destaca com força: Comunidades.
Essa newsletter semanal é criada para assinantes da Moovers Learning Experience.
Escrita pela nossa Diretora Executiva, a futurista Monica Magalhaes, que compartilha insigths, reflexões e análise de tendências em tecnologias emergentes. Hello moovers! Monica Magalhaes por aqui 👋🏼
Em nossas conversas por aqui tento sempre exercitar meu pensamento de fronteira, uma forma de olhar para o mundo que reconhece que as ideias mais interessantes acontecem nas bordas. Fora do espaço comum, onde tudo muitas vezes é amplamente conhecido e debatido.
Gente que gosta de habitar nessas fronteiras sempre traz ideias novas, muitas vezes elas nem têm nome ainda ou são aqueles conceitos que a gente ouve pela primeira vez.
Quem habita nessas fronteiras de pensamento é frequentemente julgado como desconectado da realidade, visionário demais, até profético. Suas ideias soam estranhas, prematuras, fora do tempo.
A credibilidade só vem depois, quando o movimento que elas anteciparam finalmente ganha força e se torna visível para todos. Aí sim, retrospectivamente, as pessoas reconhecem seu valor.
A verdade é que a maioria das pessoas não está preparada para pensamentos de fronteira. Eles exigem uma tolerância ao desconforto, uma disposição para questionar o senso comum, uma paciência para habitar a incerteza. E isso não é fácil nem natural para a maioria de nós.
A Moovers fez 2 anos. Na época, muitos não compreenderam meu movimento de migrar a criação de conteúdo para uma plataforma fechada, mas meu pensamento de fronteira me dizia que era a decisão certa. Essa semana durante a curadoria do SXSW 2026 vejo que o tema de destaque no maior festival de inovação do mundo são as Comunidades.
Essa é uma conversa que não é apenas para criadores de conteúdo, mas ela se conecta com novos comportamentos e por aqui a gente ama esse realinhamento constante com o espírito do tempo.
Digital Campfires
Apareceu um termo novo para descrever o fenômeno das comunidades: digital campfires, ou “fogueiras digitais”. O conceito, criado por Sara Wilson, captura algo sobre a forma como nos reunimos online hoje, com conversas mais íntimas e espontâneas. Mas o que ela realmente fez foi dar um nome palatável e uma moldura de marketing para algo que o movimento de comunidades já defende há tempos: a migração para espaços menores, a busca por pertencimento, a conexão genuína acima do alcance.
Isso tem valor porque traduziu a conversa para uma linguagem que marcas e Fortune 500s entendem. “Comunidade” pode soar abstrato para um CMO. Já “digital campfires como estratégia de atenção” entra mais fácil numa sala de reunião. A distinção é mais de ângulo do que de substância: o movimento de comunidade olha de dentro para fora (como criar espaços de pertencimento), enquanto o framework de digital campfires olha de fora para dentro (como marcas podem participar desses espaços que já se formam organicamente).
O conceito funciona como porta de entrada, mas a conversa real é sobre comunidade e uma mudança profunda na forma como as pessoas querem se conectar.
Para entender essa transformação, vale olhar para trás. No início dos anos 2000, a web nasceu com espírito de comunidade: fóruns, blogs, espaços onde as pessoas se reuniam em torno de interesses compartilhados. Eram ambientes íntimos, onde você conhecia os outros pelo nome e conversas se desenrolavam ao longo de dias.
Então vieram as redes sociais, Facebook, Twitter, Instagram, YouTube, conectando a gente com o mundo inteiro, mas mudando drasticamente a natureza dessa conexão. De repente, tudo girava em torno de números: seguidores, likes, alcance. O valor de uma presença online passou a ser medido em termos quantitativos, não qualitativos. Quanto mais pessoas você atingisse, mais relevante era considerado. O algoritmo favorece o viral, o polêmico, criando uma cultura de performance constante onde competimos por atenção em um feed infinito.
Diferente das redes sociais, onde a conversa é de um para muitos, as comunidades criam ambientes onde a conversa é de muitos para muitos. São espaços menores, mais fechados, onde as pessoas se sentem à vontade para compartilhar com autenticidade e construir conexões reais. Há reciprocidade e presença. As comunidades são esse lugar onde audiência se transforma em pertencimento, onde deixamos de ser números em uma métrica e nos tornamos pessoas que se reconhecem, se importam e crescem juntas.
Comunidade não é audiência. E isso muda tudo.
Quando você tem uma audiência, você está falando para muitas pessoas. Há um palco, há quem assista, e a comunicação é basicamente unidirecional. Métricas de alcance, número de seguidores, visualizações, tudo isso mede audiência. É sobre quantos olhos estão em você, quantas pessoas consomem o que você produz.
Comunidade, por outro lado, é sobre pertencer. Não é sobre quantos te seguem, mas sobre quem caminha ao seu lado. Em uma comunidade, as pessoas não são apenas consumidoras passivas de conteúdo, elas contribuem, colaboram e se apoiam mutuamente.
Essa distinção importa porque muda completamente a forma como pensamos quando a dúvida é como construir presença online. Se o objetivo é apenas audiência, você está sempre performando, sempre tentando alcançar mais pessoas, sempre medindo sucesso em números crescentes. Mas se o objetivo é comunidade, você está cultivando relacionamentos, criando espaço para vulnerabilidade e troca genuína, medindo sucesso pela qualidade das conexões e pelo senso de pertencimento que as pessoas experimentam.
Mas essas métricas não capturam nada sobre a profundidade das conexões, sobre quanto aquelas interações realmente importam para as pessoas envolvidas. O problema é que essa lógica de audiência massiva levou a um paradoxo: estamos mais “conectados” do que nunca, mas muitas pessoas se sentem mais sozinhas. Temos centenas ou milhares de seguidores, mas poucos relacionamentos genuínos. Falamos para muitos, mas conversamos com poucos.
É nesse contexto que as Comunidades se fortalecem. Há um cansaço crescente com a superficialidade das grandes plataformas, as pessoas estão buscando algo diferente: espaços menores, mais intencionais, onde possam ser vistas e ouvidas de verdade.
Soma-se a isso a insegurança. Existe um risco enorme em construir sua presença digital nas grandes plataformas, pois você investe anos criando conteúdo, cultivando seguidores e então as regras mudam. E esse ainda pode ser o menor dos seus problemas, uma plataforma nada mais é do que uma empresa privada operando no seu país que pode deixá-lo por inúmeras razões a qualquer momento.
Esse é o desafio de construir uma casa em um terreno alugado. Você não controla a plataforma, não controla as regras, não controla o acesso às pessoas que te seguem. A qualquer momento, tudo pode mudar e de fato muda. O algoritmo que trabalhava a seu favor de repente começa a jogar contra.
Nesse ambiente, mesmo conteúdo de qualidade se perde no ruído. A lógica da distribuição massiva deixou de funcionar para a maioria das pessoas. Você pode ter milhares de seguidores e alcançar apenas uma fração deles. Pode criar algo valioso e ver pouquíssimo engajamento genuíno.
Ao mesmo tempo, os custos de aquisição, anúncios pagos, funis, campanhas de tráfego, estão ficando caros para pequenos negócios. O que funcionava há cinco anos simplesmente não escala da mesma forma hoje.
O resultado é que muitas pessoas se afastaram dos feeds públicos saturados e se movem para espaços mais íntimos como grupos privados, newsletters, comunidades no WhatsApp ou Slack e podcasts de nicho.
Essa migração é silenciosa, mas crescente. As pessoas não anunciam em suas redes que estão saindo, pelo menos não a maioria delas; sem perceber, elas simplesmente começam a valorizar diferente seu tempo e sua atenção. Buscam espaços onde não precisam competir por atenção, onde podem ter conversas reais, onde se sentem parte de algo menor e mais significativo.
Relevância acima de alcance
O que está emergindo não é apenas uma mudança de plataformas, mas uma mudança de paradigma. Estamos saindo de um modelo onde sucesso significa alcançar o máximo de pessoas possível, para um modelo onde sucesso significa ser profundamente relevante para as pessoas certas.
Relevância acima de alcance. Essa frase pode parecer simples, mas suas implicações são disruptivas para quem cria conteúdo, para quem constrói marcas, para quem pensa sobre comunicação digital.
Em vez de perseguir números cada vez maiores de seguidores ou impressões, o foco se desloca para a qualidade da conexão. Quantas pessoas realmente se importam com o que você faz? Quantas voltam consistentemente? Quantas te recomendam para outras pessoas? Quantas mudariam seus comportamentos baseadas no que você compartilha?
Essas perguntas medem relevância, não alcance. E relevância é o que constrói comunidades reais.
Nesse novo paradigma, storytelling deixa de ser uma “tática de engajamento” e se torna uma tecnologia de pertencimento. Histórias bem contadas não apenas capturam atenção, elas criam identidade compartilhada. Elas dão às pessoas linguagem para entender suas próprias experiências. Elas constroem pontes entre indivíduos que, de outra forma, não se perceberiam como parte de algo comum.
Mas há também outra camada além do storytelling, o aprendizado como cola comunitária. Cada vez mais, as comunidades mais vibrantes e engajadas não são construídas apenas em torno de conteúdo passivo, mas de experiências de aprendizagem compartilhada.
Grupos de aprendizado, desafios coletivos, imersões presenciais ou virtuais, esses formatos criam vínculos profundos porque as pessoas não estão apenas consumindo informação juntas, estão se transformando juntas. Há esforço compartilhado, descobertas coletivas, apoio mútuo nas dificuldades. E isso cria laços que persistem muito além da experiência inicial.
O mais interessante é que esses formatos também geram receitas mais sustentáveis que o modelo tradicional de audiência. Em vez de depender de patrocínios ou vendas únicas para uma grande audiência fria, você constrói uma economia baseada em valor profundo entregue para um grupo menor de pessoas altamente engajadas.
Nesse contexto, o papel do criador muda fundamentalmente. Ele deixa de ser um “produtor de conteúdo”, alguém que fabrica posts para alimentar algoritmos e se torna um líder de comunidade. Alguém que cultiva um espaço, que facilita conversas, que conecta pessoas entre si, que cuida da cultura daquele grupo.
Essa mudança de identidade é sutil, mas poderosa. Um produtor de conteúdo está sempre criando para um público abstrato, sempre perseguindo a próxima viralização. Um líder de comunidade está presente para pessoas reais, investindo em relacionamentos de longo prazo, cultivando algo que cresce organicamente ao longo do tempo.
O cheiro de futuro
Nesse ponto do meu texto, você já percebeu os sinais.
O que está sendo desenhado mostra que as comunidades se tornam os ativos mais valiosos que uma marca ou um criador pode ter. Não o tamanho do canal, não o número de seguidores, mas a qualidade e a profundidade das relações com as pessoas que realmente se importam.
Pense nisso: se amanhã todas as plataformas de redes sociais desaparecessem, quem sobreviveria? Aqueles que têm audiência, ou aqueles que têm comunidade? Aqueles que dependem de algoritmos para alcançar pessoas, ou aqueles que têm contato direto com seu público, seja por emails, grupos privados, relacionamentos reais?
Comunidade é resiliente. Comunidade é portátil. Comunidade é um ativo que você realmente possui.
E quando marcas começam a entender isso, tudo muda. Em vez de gastar orçamentos gigantescos tentando comprar atenção, anúncios cada vez mais caros para alcançar pessoas cada vez menos interessadas, elas começam a investir em cultivar pertencimento.
Elas criam espaços onde as pessoas querem estar. Elas facilitam conexões entre seus clientes. Elas constroem em torno de valores compartilhados, não apenas de produtos. Elas se tornam parte da identidade das pessoas, não apenas fornecedoras de serviços.
Isso não é mais rápido ou mais fácil que o marketing tradicional. Na verdade, é mais lento e exige mais paciência. Mas é infinitamente mais sustentável. E cria um tipo de lealdade que nenhuma campanha publicitária pode comprar.
Então deixo você com uma provocação para encerrar: e se o futuro do marketing não for sobre alcançar pessoas, mas sobre criar espaços onde elas queiram ficar? O que mudaria na forma como você constrói sua presença online? Na forma como sua marca se comunica? Na forma como você investe seu tempo e energia?
Pensamento de fronteira é isso. Perceber os sinais.
Muitos até veem a mudança. Mas agir, mesmo com toda a preguiça de começar tudo de novo, é onde estão os poucos.
Como fundadora da Moovers, tenho todos os viéses de quem é apaixonada por Comunidades. Mas se você ainda não teve essa experiência vale à pena refletir sobre experimentar fazer parte de uma Comunidade de Aprendizagem. Você pode se surpreender com o valor que elas podem gerar.
let’s keep moving,
Moovers - Imersão SXSW 2026
Essa Comunidade estará junta no Texas!!!
Estamos nos últimos dias de inscrição para a nossa primeira Journey Internacional do ano, nossa viagem de Imersão para o SXSW 2026, e este ano levaremos uma das maiores delegações brasileiras para Austin, no Texas. De 11 a 15 de Março.
Não é turismo de conferência. É surra de conteúdo!
Vamos muito além de mapear palestras: serão 5 dias de aulas com especialistas, conectando as principais tendências captadas ao longo do festival com contexto, método e leitura estratégica.
Se você quer entender o que está mudando, e voltar maior do que saiu, ainda dá tempo. Vem com a gente! Cliqui aqui neste link para receber nosso material.






As “digital campfires” são, no fundo, espaços onde a escuta volta a ter valor. Onde a comunicação deixa de ser estratégica apenas para capturar atenção e passa a ser intencional para construir confiança. Comunicação Curativa olha para esse movimento de dentro para fora: não é apenas sobre criar espaços menores, mas sobre como nos posicionamos neles: com vulnerabilidade, presença e letramento emocional.
Como muito bem colocado neste texto maravilhoso, comunidade não se sustenta com performance mas através de diálogos que curam o ruído, reduzem a solidão e transformam identidade em pertencimento.
Texto incrível! Comunidade é muito além fazer parte daquilo que acredita, é aprender, compartilhar e pertencer!